No Jardim da Reforma

Este texto é para você, leitor, que tem dúvidas sobre algumas questões básicas da soteriologia (aquela parte da teologia que estuda a doutrina da salvação) Calvinista, também chamada de Reformada. Este texto não tem a intenção de soar apologético, ou de lutar com unhas e garras pela nossa corrente doutrinária. Ainda que isso possa soar estranho, principalmente a você que já está acostumado com essa tonalidade em artigos espalhados pela internet, pretendo apenas trazer informações básicas e claras do que cremos.

Serão tratados, então, os Cinco Pontos do Calvinismo, conhecidos também como as Doutrinas da Graça. Ao contrário do que se pensa, e que normalmente se deduz, esta doutrina não foi criada por Calvino, pelo contrário, “estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro até maio de 1619”[1].

Os Cinco Pontos são: Depravação Total (Total Depravity), Eleição Incondicional (Unconditional Election), Expiação Limitada (Limited Atonement), Graça Irresistível (Irresistible Grace), Perseverança dos Santos (Perseverance of Saints). Se diz que a tulipa é a flor do Calvinismo porque, como se vê no inglês, o acróstico popular forma a palavra “tulip”, que é a flor em questão.

Sobre a Depravação Total

Você já deve ter se perguntado “Por que acontecem coisas ruins com pessoas boas?”  Na verdade, não acontece, pois as Escrituras declaram que todos são maus, somente o Pai é bom (Lucas 18:19). Nós costumamos chamar isso de “Depravação total”.

Representada pelo “T” na Tulip, a “Flor Calvinista”, a doutrina da “Depravação Total” é normalmente a primeira a ser explicada quando a conversa é sobre as Doutrinas da Graça.

Essa doutrina afirma que o homem não é capaz de se salvar, ou seja, não importa quantas coisas boas ele faça para as outras pessoas, ele continuará sendo injusto e nada que fizer pode salvá-lo. Aliás, aos olhos de Deus, o homem natural, aquele que ainda não foi convertido pelo Senhor, que não tem o seu coração transformado pelo Espírito Santo, não pode praticar bem algum, porque está morto por conta do pecado, pois por causa de Adão, o pecado passou a fazer parte de cada ser humano desde o seu nascimento.

Paulo deixa isso bem claro em algumas passagens de suas cartas, como por exemplo quando escreve aos Romanos dizendo que não há ninguém que faça o bem, ninguém que busque a Deus (Rm 3.10-12), que todos os homens pecaram, e que por causa do pecado estão separados de Deus (Rm 3.23), ou quando escreve aos irmãos da cidade de Éfeso, dizendo que sem Deus o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1-2).

Isso não quer dizer que o homem é “100% mau” e que só é capaz de fazer maldades, como matar ou mentir, mas sim que todas as áreas do ser humano, desde seu jeito de falar ao modo de viver, por exemplo, foram contaminadas pelo pecado, e que obra alguma realizada pelo homem é capaz de conquistar a bondade e o favor de Deus.

Quer um exemplo? Só olhar para uma criança. Ninguém precisa ensiná-la a fazer birra, gritar com os pais ou mentir. Essa maldade mora dentro dela, desde pequena, por culpa do pecado.

Porém, Deus respondeu ao pecado enviando Cristo Jesus, que nos libertou da escravidão, e por sua graça nos justificou. Como está escrito em Romanos 3.24, nós todos somos transformados em pessoas justas graças ao sacrifício de Jesus na cruz, por cada um de nós.

Sobre a Eleição Incondicional

Não tem como evitar: quando falamos de “Eleição”, acabamos pensando em “escolha”. Lembramos de quando vamos eleger um presidente, um vereador, algum outro político para assumir alguma função ou, quem sabe, até mesmo um time favorito ou aquele ator que se destaca pelo filme que fez.

O segundo ponto do Calvinismo, a segunda pétala da Tulipa que estamos estudando, chama-se “Eleição Incondicional”. Mas, o que é isso? Deus pode escolher algumas pessoas e rejeitar, reprovar, outras? Ele não seria injusto se fizesse isso?

Quando olhamos para a Bíblia, encontramos o apóstolo Paulo escrevendo o seguinte:

“Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.” Ef 1.4-6

Aprendemos com o primeiro ponto da doutrina calvinista que nenhuma pessoa consegue ser boa o bastante para se salvar. Sabe o que isso quer dizer? Que infelizmente todos os seres humanos estavam condenados à morte e ao inferno por causa de seus pecados. Isso seria péssimo para nós!

Porém, como Deus é extremamente bondoso e cheio de graça, Ele resolveu eleger, escolher, do meio dessa gente toda, um povo para ser chamado de “povo de Deus”. Sabe quem? A Igreja! É por isso que Deus não pode ser chamado de “injusto” pela escolha dEle. É exatamente o contrário! Essa escolha é um ato de misericórdia!

O mesmo apóstolo Paulo escreveu dizendo que o oleiro, aquela pessoa que faz um vaso, pode escolher fazer o que quiser com o barro que tem nas mãos, e transformá-lo em qualquer coisa (Rm 9.14-24).

Essa escolha é chamada de incondicional porque nada em nós poderia ter provocado isso. Não existem condições para que a eleição do Pai tenha sido feita. Não existe um “tipo favorito de pessoas”. Deus não escolheu seus filhos porque eles são ricos ou pobres, feios ou bonitos. Como diz a Palavra, “portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus” (Rm 9.16)

O que aprendemos com este ponto? Que a eleição de Deus, o fato de o Pai escolher seus filhos é, acima de tudo, um ato de misericórdia. Só somos salvos porque antes de haver mundo, o Senhor já tinha nos escolhido.

Sobre a Expiação Limitada

Sabemos que o ser humano é mau e que por conta própria ele não consegue alcançar a salvação. Também, que o coração do homem, que é de onde saem todos os desejos e vontades, não pode querer alguma coisa boa aos olhos de Deus. “Não há um justo sequer”, lembra?

Deus, então, para demonstrar sua misericórdia e graça, seu amor e bondade, decide escolher alguns homens para salvá-los. O Senhor os elegeu para “louvor de sua glória”. Mas, e aí? Como isso funciona? Porque temos um problema aqui: todos merecem o inferno e o Pai escolhe alguns para salvar, mas como Ele faz isso?

É exatamente sobre isto que se trata o terceiro ponto do calvinismo: a Expiação Limitada.

Primeiro, precisamos entender o que é “expiação”. Segundo o dicionário, essa palavra significa sofrer a culpa ou pena por algum pecado ou crime cometido. No nosso caso, pecamos contra Deus, e nada que façamos pode apagar esta dívida. É aí que surge Jesus, o nosso Salvador. Ele vem à terra, sofre, morre e ressuscita pelos nossos pecados, fazendo assim com que nós possamos nos apresentar sem medo diante de Deus. A isso damos o nome de “expiação substitutiva” – Jesus sofre a ira do Pai por nós para que possamos desfrutar do Seu amor como filhos adotados.

Jesus morreu para o Pai provar seu amor por nós (Rm 5.8), e para satisfazer a ira Divina contra o pecado. O Justo morreu pelos criminosos.

Tá, então Jesus morreu por todos os seres humanos?

Não, e esse é o segundo ponto que precisamos entender. Quando falamos assim, em expiação “limitada”, não queremos dizer que o poder ou o valor do sangue de Jesus sejam pequenos. Longe disso! Uma maneira mais fácil de entender essa doutrina é chamando-a de “particular”.

Mas, por que “particular”? Porque Jesus morreu pelo seu povo (Is 53.8; Mt 1.21), suas ovelhas (Jo 10.14, 15, 26-28) e sua Igreja (At 20.28). Quando a Bíblia fala que Jesus morreu por “todos” ou “pelo mundo”, precisamos entender que os benefícios da morte de Cristo não eram limitados apenas ao povo de Israel, mas sim a todos os povos, tribos e nações.

Um exemplo de algo parecido é encontrado em uma das orações de Cristo. Ele diz ao Pai “…não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus…” (Jo 17.9). Neste trecho o Senhor Jesus deixa bem claro que existe um povo que a Ele foi dado pelo Pai, e outro que não. Da mesma forma que Ele orou apenas pelos seus, também a salvação por meio de seu sacrifício foi aplicada apenas a esses.

Jesus morreu por todos sem acepção, mas não por todos sem exceção. Ele morreu por todo aquele que nEle crê, sendo que a Fé é um presente de Deus a seus filhos. A morte de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos.

Sobre a Graça Irresistível

Já entendemos que o homem é mau, e que nada que ele faça pode ou consegue atrair o favor de Deus. Sabemos também que por toda sua maldade e pecado, o ser humano corre a passos largos para o inferno, e que apenas a mão forte do Senhor tem poder para impedir isto. Assim, para sua glória e em um ato de misericórdia, o Todo Poderoso escolheu alguns destes homens para salvar e adotar, santificando-os e levando-os ao céu, para sua eterna morada.

Este ato de misericórdia foi confirmado na cruz, quando Jesus desce a terra e morre por todos aqueles que são seus. Ele troca de lugar conosco: o Justo morre pelos pecadores, para que esses consigam viver como justos aos olhos do Pai.

Entretanto, ainda existe um problema. Como estes seres mortos conseguirão se aproximar do Salvador? Eles não tem vida, não tem vontade, não tem desejos bons em sua natureza.

É exatamente sobre isso que trata o quarto ponto do Calvinismo: da Graça Irresistível.

Como “Graça Irresistível” nós precisamos entender, basicamente, que Deus é Soberano e que Ele pode vencer facilmente toda rebeldia do coração humano, atraindo seus filhos para seus braços de amor. É isso que vemos no livro do profeta Daniel, por exemplo.

“Todos os povos da terra são como nada diante dele. Ele age como lhe agrada com os exércitos dos céus e com os habitantes da terra. Ninguém é capaz de resistir à sua mão nem de dizer-lhe: “O que fizeste?” Dn 4.35

Outro texto bíblico que nos ajuda a entender com mais facilidade a soberania de Deus no processo de conversão é uma declaração do Todo Poderoso em Os 11.4, quando ele fala que atraiu – e continua atraindo – seu povo com “laços de amor”.

Esta doutrina não ensina que o homem não resiste a Deus. É exatamente o contrário. A natureza caída do homem é contra o Senhor, e se não fosse por Sua graça nós sempre resistiríamos à vontade do Pai. Entretanto, com este ponto do Calvinismo aprendemos que nenhuma vontade pode ser mais forte que a de nosso Senhor. Aqueles que pertencem a Cristo são e serão eficazmente chamados. Aliás, este é outro nome do que aprendemos hoje: Chamado (ou Vocação) Eficaz.

Deus, através da pregação fiel da Palavra e da operação do seu Santo Espírito, dá vida ao homem pecador e o convence de que há salvação e esperança apenas nos braços do Pai.

Sobre a Perseverança dos Santos

Este é um dos pontos mais mal compreendidos do Calvinismo, a doutrina da “Perseverança dos Santos”. Você talvez já ouviu aquela frase, provavelmente dita com tom de zombaria, “uma vez salvo, salvo para sempre”. Neste último ponto do Calvinismo, entenderemos o porquê de ser impossível que um eleito do Senhor perca sua salvação e pereça na eternidade.

A doutrina da Perseverança dos Santos (ou Preservação dos Santos) é uma conclusão de todos os outros pontos do Calvinismo. Entendemos que os decretos de Deus são eternos e perfeitos. Se assim cremos, é natural ver que como o Senhor decretou alguns homens para a salvação em Cristo, também assegurará que estas pessoas perseverem até o fim. Afinal de contas, se os eleitos não perseverassem, a salvação em Cristo seria falha e Deus, imperfeito. E isso é simplesmente um absurdo só de se imaginar!

Esta doutrina nos ensina que o eleito continuará no caminho da salvação, seguro de que não será afastado das mãos de Cristo. É exatamente isso que nosso mestre nos fala quando lemos o evangelho de João.

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia.” Jo 6.37-39

Esta maravilhosa doutrina nos traz a segurança de estarmos guardados por Cristo, mas também nos lembra de que devemos perseverar. Aquele ditado zombeteiro que falam, do “uma vez salvo, salvo para sempre”, é apenas um dos lados da moeda. Sim, cremos que a salvação não pode ser perdida, mas aprendemos com o Calvinismo que uma vida carnal e ímpia são opostas ao chamado do Pai, que nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis.

Nossa eterna eleição no Pai e a segurança que tanto desfrutamos são confirmadas por uma vida de santidade na presença de nosso Criador. Sim, um verdadeiro cristão acaba pecando. Um verdadeiro cristão pode até, por um curto período de tempo, viver distante dos caminhos do Senhor, mas ele voltará para casa, tal como fez o filho pródigo.

E, assim como na parábola do filho pródigo, o Pai o receberá de braços abertos, pois estamos seguros de que nada, absolutamente nada nos separa do amor de Deus, que está em Cristo Jesus.

Que este texto, amado leitor, sirva para trazer um pouco mais de luz a toda e qualquer dúvida que faça morada em seu coração. Que a Graça do Pai esteja a lhe iluminar sempre, e que a boa mão do Senhor lhe guie por este jardim tão maravilhoso que são as doutrinas bíblicas.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

[1] Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism, http://www.unifil.br/teologia/arquivos/ cincopontoscalvinoesboco.pdf

 

Ele É

Por estes dias, pela graça do Pai, me deparei com uma música que há algum tempo não ouvia. Seu nome é exatamente o título deste texto, “Ele é”, e foi composta pela dupla “Os Arrais”.

Nesta canção, toda a mensagem pode ser resumida precisamente nesta expressão, “Ele é”. Um dos trechos, inclusive, e que muito me toca o coração, transcrevo abaixo, para então levar a você um pouco do que penso sobre o assunto.

“Ele tira o pecado do mundo, planta esperança na terra do meu coração. Cristo, Pão que alimenta o faminto, vinho esmagado e servido na cruz para todo cansado. O que Cristo oferece, Ele é.”

De fato, em nossa caminhada na terra, nos deparamos com inúmeras necessidades e incontáveis problemas. Nos encontramos em situações de desespero, onde além de não termos nada, muitas vezes ainda devemos. Nestas horas pavorosas nos falta uma coisa: esperança. Sentimos as angústias da vida, os desprazeres que eventualmente enfrentamos, e nos sentimos vazios. As promessas aparentemente não são para nós, e até o céu nos parece distante.

Nestes momentos, é extremamente importante que nos lembremos desta expressão: Ele é.

Ao olharmos para a Palavra, que é nossa regra de conduta e fé, encontramos o Senhor Jesus fazendo uma declaração sobre este assunto.

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.” Jo 6.35

Entenda, querido leitor, que Cristo é tudo, precisamente tudo que você necessita. Ele é o pão da vida, Ele é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, Ele é o alfa e ômega, o princípio e o fim. Não apenas isso, mas acredito ser necessário trazer mais uma verdade à tona, que está contida na letra desta música: o que Cristo oferece, Ele é.

Quando você se deparar em momentos de solitude e aflição na vida, saiba que Cristo lhe oferecerá descanso para a alma, e Ele será este descanso.

Quando você enfrentar momentos de aflição tamanha, onde os dias tornar-se-ão sombrios e escuros, Cristo lhe oferecerá um raio de esperança, e Ele será este sol da justiça que brilhará sobre você.

Quando você olhar para seus dias e entender que precisa desesperadamente de salvação, ou da certeza dessa, saiba que Cristo lhe oferecerá o único meio de encontrar repouso eterno: Ele mesmo.

O que Cristo oferece, amado leitor, Ele é. Repouse tranquilo nesta certeza e suficiência.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

Voltando de Emaús

“E na mesma hora, levantando-se, tornaram para Jerusalém, e acharam congregados os onze, e os que estavam com eles, Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão. E eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles fora conhecido no partir do pão.” Lucas 24:33-35

Há algum tempo, em um culto realizado pela manhã em minha igreja, meu pastor pregou sobre estes dois discípulos que iam pelo caminho de Emaús. Suas palavras foram voltadas para a questão da solidão, do abandono, e foi um sermão que muito nos consolou a alma.

São versículos conhecidos, e não foram poucas as vezes que já ouvi pregações sobre estes textos do evangelho de Lucas. Entretanto, conforme o sermão era desenvolvido no púlpito da igreja neste dia, o Senhor fez com que meu coração atentasse para alguns pontos acerca destes versos, e são estes detalhes que desejo partilhar neste artigo.

Um Pouco de Contexto

Este capítulo 24, do evangelho de Lucas, é o último da “carta” que o médico, amigo de Paulo, escreve a um homem chamado Teófilo. O autor narra que pareceu-lhe bem expor, depois de uma acurada investigação, e em ordem, os fatos que aconteceram no decorrer do ministério de Cristo (Lc 1.1-4).

Como meu desejo neste artigo é de falar dos fatos que aconteceram após a morte de Jesus, creio ser necessário analisar de forma mais próxima o final deste livro, onde vemos que logo no capítulo 22 dá-se início às conspirações para matar a Cristo (22.1-6). Desde então, o Messias vai ao Getsêmani (22.39-53), Pedro nega sua fé (22.54-62), Cristo é julgado e, então crucificado (22.63 até 23.56). O capítulo 24, então, trata sobre a ressurreição do Mestre.

Sobre os Dois Discípulos

A Palavra nos narra, então, que no mesmo dia em que Pedro correu ao sepulcro e não viu seu Senhor- ele viu apenas os lençóis de linho- estes dois homens, discípulos de Cristo, seguidores do Caminho, dirigiam-se à aldeia de Emaús, que distava aproximadamente 11 quilômetros da cidade de Jerusalém.

Enquanto caminhavam, conversavam e discutiam sobre os acontecimentos recentes. Debatiam sobre a morte de Cristo, até que se lhes aparece um homem, aparentemente desinformado das notícias. Lucas nos narra ainda que este homem era o assunto da conversa destes dois, o próprio Mestre. Entretanto, o mesmo autor demonstra que “seus olhos estavam como que impedidos de o reconhecer”.

Cristo, então, interfere no diálogo e indaga aos caminhantes o que lhes preocupava, o que afligia seus corações. Entristecidos, ambos param e calam-se, até que Cleopas (o único que a Palavra faz menção do nome) responde ao até então “desconhecido”, perguntando-o se era o único que, vindo de Jerusalém, ignorava as ocorrências dos últimos dias. O Senhor, promovendo o diálogo, pergunta novamente “quais?”. E, na resposta dos dois discípulos é que desejo fazer meu primeiro comentário.

Estes dois homens respondem a Cristo contando toda a história do que aconteceu, porém, citam algo que muito me entristece o coração. Eles eram seguidores de Cristo, e não duvido que tinham um coração sincero batendo em seus peitos. Eram discípulos do Senhor, pois assim a Palavra nos narra, porém aparentemente não entenderam qual a missão principal de Jesus na terra. Quando, no versículo 24, lemos sua afirmação de que Cristo viria para “redimir a Israel”, podemos notar que as esperanças dos dois restavam no fato de serem livres de Roma, o império que afligia seu povo.

Entenda, com este parêntese que abro agora, que Cristo veio nos libertar do pecado, do jugo a que antes estávamos submetidos por sermos representados, diante de Deus, por Adão. Esta era a mensagem central da pregação de nosso Senhor. Quando vemos que Cristo, pelas diversas vezes que discursou, trouxe à tona a Lei de Moisés e o testemunho dos profetas, notamos que ele apontava para a incapacidade do homem de, pelos seus méritos, ser justo diante de Deus e salvar-se (pois para tornar isso claro que servia a Lei), e que a salvação viria pelo Messias, aquele único que teria o poder de cumprir a Lei do Senhor e oferecer a si mesmo como oferta pelo pecado do povo (que é precisamente a mensagem dos profetas, como vemos em Is 53).

Digo que o versículo 24 me dói no peito, pois, quando olhamos para a realidade atual da igreja evangélica brasileira, podemos notar que muitas pessoas afirmam seguir um Cristo que elas não conhecem. De forma irracional, obedecem aos mandamentos que não foram impostos pelo Senhor, mas falham no tocante ao amor a Deus e ao próximo, por exemplo, que segundo Cristo são o resumo da Lei. Tal como os discípulos que iam no caminho de Emaús, alguns de nossos irmãos não entendem a mensagem central do evangelho.

Prosseguimos, então, com a análise destes trechos e nos deparamos com a resposta de Cristo. Ah, e que resposta! No versículo 27 Lucas nos afirma o seguinte:

“E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.” Lucas 24:27

A resposta do Mestre para toda a falta de conhecimento, toda a incredulidade, medo e dúvida que estavam alojados nos corações dos dois discípulos é “está escrito”. Cristo, passo a passo, ensina aos discípulos toda a trajetória do “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Desde a Lei (Moisés) até ao que dito pelos profetas, a respeito do Messias, foi tratado naquela caminhada. E, daqui, vejo ser necessário apontar alguns fatos:

1) Em primeiro lugar, e creio que mais importante, toda pregação da Palavra deve culminar em apenas um único alvo: Cristo. Vemos, na passagem acima exposta, que o próprio Senhor Jesus falava daquilo que “dele se achava em todas as Escrituras”. Bênçãos materiais, uma vida estável e conselhos sobre o que fazer ou não fazer não podem ser o ápice de nossas pregações. Tudo começa em Cristo, e deve terminar em Cristo. Devemos pregar para glória de Deus, demonstrando Cristo em cada Palavra, cada passagem. É evidente que assuntos do cotidiano podem – e devem – ser tratados no seio da Igreja, mas lembrando sempre que nada pode eclipsar o nome de nosso Senhor.

2) Em segundo lugar, a certeza da nossa fé não deve estar firmada nas coisas passageiras que vemos, nos boatos que ouvimos ou nos feitos das pessoas que nos cercam. Nossa fé precisa estar firmada na Palavra. É apenas com os pés cravados na Rocha Eterna que poderemos sobreviver aos constantes açoites do vento e das ondas, que tentam nos desviar do Santo Caminho.

3) Em terceiro lugar, vemos o resultado da pregação fiel das Escrituras – elas dão vida ao coração. Observando o versículo 32, notamos que o coração dos discípulos era esquentado quando Cristo com eles conversava. Como disse o apóstolo Paulo, a “fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

Assim, para concluir este texto, visto que não desejo alongá-lo ainda mais, creio ser necessário tecer uma pequena consideração sobre os versículos iniciais. Lá, notamos que os discípulos levantam-se, saem da casa onde estavam reunidos e voltam de Emaús a caminho de Jerusalém. Lembra de quando o Senhor Jesus os abordou? Cristo encontrou-os enquanto caminhavam para longe daquilo que lhes trazia sofrimento, a cruz e morte do Mestre, e agora eles percorrem este mesmo caminho, mas em sentido contrário, à Jerusalém, ao túmulo de Cristo, para levar as boas novas do Evangelho aos demais discípulos.

Aqui, termino com as palavras do Reverendo Edson Martins, meu pastor, quando afirma que “quem foge da realidade da cruz, não é capaz de ver o túmulo vazio”.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

A Vida é Trem-Bala, Parceiro!

Sim, é com esta frase da música “Trem-bala”, composta e cantada pela Ana Vilela, que dou nome a este texto. A intenção aqui é simples: demonstrar quão passageira é a nossa vida, aquela que às vezes vivemos de forma banal e sem sentido. Repletos de correrias, cercados de angústias e afogados em mares de sofrimentos, passamos por dias trabalhosos – onde a rotina, muitas vezes, tira a beleza da vida.

Olhando para a Palavra, que é onde repousa o conforto e alegria de todo aquele que professa a fé em Cristo, encontramos na carta de Tiago alguns versículos sobre a brevidade da vida, e de como vivê-la para glória do Pai.

“Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, deveríeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” Tg 4.13-15

Estes três versículos gritam aos nossos corações algumas verdades que precisam ser observadas se quisermos entender qual a finalidade de nossa vida terrena. Deus é Soberano, e isto precisa ser gravado em nossas mentes. Nada, e absolutamente nada, foge das mãos do Senhor.

Em primeiro lugar, vemos que o meio irmão de Jesus desconstrói a ideia de que os planos dos homens são eternos e infalíveis. Eles escreve estas palavras aos que dizem “hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros” e lhes afirma: “vós não sabeis o que sucederá amanhã”. O que são os nossos planos, quando comparados à vontade do Senhor?

O sábio Salomão escreve que não há plano, conhecimento ou ideia que possa prosperar contra o Senhor (Pv 21.30), que o homem até pode estar pronto e armado para a batalha e lutas que vê, mas que é do Senhor que vem a vitória (Pv 21.31), e que alguns caminhos e planos podem nos parecer corretos e direitos, mas que levam apenas à morte (Pv 14.12).

A verdade é realmente esta: nós não sabemos os que nos acontecerá amanhã. Quão sábios podemos ser, quão longe conseguimos enxergar? O que podemos fazer quando Deus nos mostra que a nossa sabedoria, nosso planejamento, é nada comparado ao que Ele já anteviu e decretou? O que são nossos planos, repito, quando comparados à vontade do Senhor?

A resposta encontramos, novamente, nas palavras de Tiago. Antes, entretanto, de nos trazer luz a este questionamento, ele faz uma observação sobre o que é a nossa vida: “sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa”. Isto deve nos servir como um aviso, um alerta. Não se apegue às coisas desta vida, como se fossem eternas. Não se sinta preso por aquilo que você tem, ou que almeja em ter. Não pense que seus planos são tudo o que lhe sustenta. Nossa vida, ainda que vivida no seu limite de dias, com quem sabe 80 ou 90 anos, é passageira, como um estalar de dedos. Como um vento que sopra e dissipa a neblina ante de nossos olhos.

A vida é breve, caro leitor, e precisa ser vivida com sentido. Davi escreveu palavras verdadeiras sobre isso, e que devem ser lembradas. Antes de chegarmos ao Salmo 91, conhecido por muitos e declamado em momentos difíceis, quando em busca de conforto e esperança, precisamos nos ater ao que o salmista revela no Salmo anterior.

“Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou a oitenta para os que têm mais vigor; entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa, e nós voamos!” Sl 90.10

Como, então, viveremos? Agora sim vem a resposta do apóstolo. Viveremos uma vida com sentido, uma vida com propósito, uma vida que glorifica a Deus quando entendermos que é em submissão a Ele que devemos viver. Tiago escreve para aquelas pessoas, que o certo a se fazer é reconhecer que tudo depende do querer de Deus, inclusive se estaremos vivos ou não. “Em vez disso”, afirma o escritor, “deveríeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.”

Toda a nossa vida, o que fazemos ou pensamos, desde o momento em que acordamos à hora em que deitamos o corpo para dormir, tudo depende inteiramente do Senhor. Em Atos, Lucas registra um discurso de Paulo que resume muito bem o que tento passar nestes parágrafos finais:

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele.” At 17:28

Sim, nele nós vivemos, pois Cristo é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). Nos movemos, pois Ele é a nossa motivação, e quem opera em nós tanto o querer quanto o efetuar (Fp 2.13). Existimos, pois foi pela boa vontade do Senhor que fomos criados e predestinados para louvor da glória de sua graça (Ef 1).

Nossa vontade deve ser sujeita ao querer de Deus. Vemos isso de forma muito clara em um exemplo que o próprio Cristo nos dá. Quando no Monte das Oliveiras, pouco antes de ser traído por Judas, Ele ora ao Pai clamando que, se possível, aquele sofrimento lhe fosse poupado. Entretanto, sendo o maior exemplo de submissão, como também narrou Paulo aos Filipenses, sua oração termina com “contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42 e Fp 2.5-8). Uma vida só tem sentido em ser vivida quando seus dias são contados para glória do Pai, mesmo em face da morte.

Enfim, querido leitor, tenha consciência disto: a vida é breve, como um sopro, uma neblina, um estalar de dedos. Nós, e ouso dizer que pela graça do Pai, não estamos no controle da situação, e não detemos o poder de mandar em nosso futuro. Somos dependentes do Senhor, e viveremos com sentido se colocarmos em prática nossa missão principal – viver para glória de Deus.

Como diz a cantora, Ana Vilela, “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

Permanece Naquilo Que

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” 2Tm 3.14-17

Há algum tempo, fiz uma série de estudos, do capítulo 3, desta segunda carta de Paulo a seu amado filho na fé, Timóteo. Nesses, foram abordados assuntos como as características que o apóstolo via dos últimos dias, bem como a certeza do sofrimento na caminhada e vida cristã. De forma resumida, podemos afirmar que os tempos tornar-se-ão cada vez mais sombrios, e que todo aquele que andar em fidelidade com Cristo passará por tribulações e aflições em nome do Senhor.

Neste texto, entretanto, meu desejo é de expor algumas considerações que podemos retirar dos versículos demonstrados acima. Convém lembrar, naturalmente, que Paulo está escrevendo sua última carta, e que, ciente disso (2Tm 4.6), dá conselhos valiosos ao jovem pastor de Éfeso.

De início, então, a ordem de Paulo a Timóteo é que este tenha um comportamento diferente dos homens cruéis e de má índole que o apóstolo aponta no versículo 13, deste mesmo capítulo. “Tu, porém”, afirma o ancião. Estes homens, que Paulo descreve como “perversos” e “impostores” são a expressão máxima da depravação do homem, visto que corrompem a Verdade a seu bel prazer, “enganando e sendo enganados”. Estes são os falsos mestres, aqueles narrados nos versículos 1 a 5 deste capítulo, que usam de mentiras e palavras enganosas para guiar, de forma errônea, o povo de Deus. Suas pregações e ensinos são heréticos, carregados de doutrinas humanas e de demônios (1 Tm 4.1), apostatando-os da fé e levando alguns a fazerem o mesmo.

Esta ordem, este “tu, porém”, perdura firme ainda em nossos dias. É nosso dever permanecer e lutar. É nosso dever perseverarmos na Sã Doutrina, conforme nos ensinaram o Cristo, os apóstolos, os pais da Igreja, os Reformadores e outros tantos servos fiéis do Bom Senhor. Ainda que vivamos em tempos onde a Igreja tem sido cada vez mais defraudada, a Verdade vendida e corrompida, os valores invertidos e negociados, faz-se necessário que nós, independente de idade, sexo, cargo ou denominação, perseveremos, preguemos e conservemos o Evangelho, as Boas Novas.

Após, Paulo deixa ainda mais explícita a forma como Timóteo deveria ser diferente dos falsos mestres ao afirmar “permanece naquilo que aprendeste e que foste inteirado”. Intrigante é o verbo utilizado pelo apóstolo, “permanece”. Só podemos “permanecer” em algum lugar quando já estamos lá. Só é possível “permanecer” em uma casa quando, em algum momento, nela adentramos. Da mesma forma, a possibilidade de “permanecer” naquilo que aprendemos é real apenas se, em algum momento, de fato aprendemos aquilo. Assim, fica clara a necessidade de estudarmos e conhecermos a Palavra de Deus. Para que nela possamos “permanecer”, primeiro precisamos conhecê-la em algum ponto de nossas vidas. É impossível resistirmos às tempestades e bravas ondas do mar se, antes, nossos pés não estiverem firmados na Rocha (Sl 40.2; Mt 7.24-25).

Deus, pela Sua profunda misericórdia, revela-Se ao homem de modos peculiares. Em primeiro lugar, a todos, através da revelação geral. O que é isso? Basta olhar pela janela de sua casa que você perceberá. Vê pássaros cantando? Vê o vento a soprar? Vê as nuvens nos céus, ou formigas na terra carregando folhas e grãos? Sente o ar adentrando seus pulmões e dando-lhe fôlego para mais um dia? Ouve, em dias de chuva, os trovões e vê relâmpagos a rasgarem os céus? Cada um destes aspectos da natureza clama a existência de Deus, proclama a glória do Criador. A Palavra é bem clara quanto a isso, seja no saltério (Sl 19) ou em uma das cartas paulinas (Rm 1.18-23).

Do mesmo modo, se existe uma revelação “geral”, existe também uma “especial”, onde o Senhor se revela, principalmente, através de duas formas: Sua Palavra e, a maior de todas, em Cristo Jesus. Vemos nas Escrituras a expressão desta verdade no evangelho de João, quando o autor nos mostra a encarnação (Jo 1.1, 14) e na carta escrita aos hebreus (Hb 1.1-3), além dos versículos que servem de base para este texto.

Em suma, isto tudo foi escrito para que fique clara uma coisa: Deus se revela a nós, então, devemos buscá-lo para aí, permanecermos nEle, conforme o apóstolo escreve à igreja de Colossos (Cl 2.6-7). Aquilo que Timóteo aprendeu e foi inteirado resume-se na expressão escrita da pessoa de Deus, a saber, Sua Palavra.

Após tratar sobre a necessidade de “permanecer” naquilo que Timóteo havia aprendido, Paulo faz uma declaração interessante: o jovem pastor aprendera toda esta Verdade desde a infância. Eis aí uma das principais funções de pais cristãos: ensinar a seus filhos a Palavra do Senhor. Quando observamos o Antigo Testamento, encontramos esta preciosidade no livro de Deuteronômio:

“E ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te; E escreve-as nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas; Para que se multipliquem os vossos dias e os dias de vossos filhos na terra que o Senhor jurou a vossos pais dar-lhes, como os dias dos céus sobre a terra.” Dt 11.19-21

É na Palavra de Deus que encontram-se os princípios basilares de uma vida sadia, de uma regra de conduta correta e, acima de tudo, onde a “salvação pela fé em Cristo Jesus” é revelada. Nossas crianças, nossos adolescentes e jovens não precisam de entretenimento nas igrejas. Não precisam de “ministérios” de dança ou de coreografia para que tenham uma fé firme, eles precisam da Palavra de Deus. Pregada, exposta e explicada. A Palavra apenas! Uma congregação ou denominação até pode “conquistar” o jovem com base no entretenimento, mas isso nunca será suficiente para verdadeiramente libertá-lo (Jo 8.32).

Ainda sobre este trecho do versículo 15, é de extrema necessidade citar o que foi grifado acima, que a “salvação [é] pela fé em Cristo Jesus”. Não por nossas obras, muito menos por nosso mérito, mas mediante a fé no sacrifício de Cristo. Paulo deixa isso bem claro quando escreve aos de Éfeso e Roma, por exemplo (Ef 2.1-10; Rm 3; 4; 5; 6). Como declarou Pedro, ousadamente, perante o Sinédrio:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” At 4.12

Mais abaixo, então, Paulo discorre que “toda a Escritura é inspirada por Deus”. Isso quer dizer que, em primeiro lugar, o fato de existir algo registrado através de escritos deu-se mediante um plano divino – não foi mero acaso. Em segundo lugar, que mesmo sendo escrita por homens, a Palavra de Deus é, de fato, do Senhor. Esta “inspiração” quer dizer que o Todo Poderoso guiou e instruiu Seus filhos, santos e profetas a escreverem tudo quanto fosse necessário. E nesta necessidade é que reside o terceiro ponto, a Palavra é suficiente! Deus se revela aos Seus filhos através da Palavra, de modo que não há necessidade de “maiores” revelações. Volto a dizer, se algo vai além do que foi revelado nas Sagradas Escrituras, é maldito. Se fica aquém, e sequer alcança o que expresso nos versículos bíblicos, é desnecessário.

Encaminhando-se para o findar do terceiro capítulo desta carta, então, Paulo afirma algumas características da Palavra de Deus, afirmando que ela é útil para:

  • O ensino, onde o caminho correto é apontado, e o padrão de santidade revelado.
  • A repreensão, pois, quando nossos caminhos divergem do que foi exposto na Palavra, vemos a diferença entre o certo (demonstrado no tópico acima) e o que fazemos de modo equivocado.
  • A correção, já que após identificar o caminho correto e reconhecer o erro, devemos nos prostrar à Palavra e moldarmos nosso estilo de vida à Ela.
  • E por fim, a educação na justiça, onde prosseguimos para o alvo, aprendendo a dar um passo de cada vez, como uma criança.

Todos estes pontos tem uma finalidade. Nas palavras de Paulo, “para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. A única coisa capaz de transformar nossos corações e nos moldar em “verdadeiros cidadãos do céu” é a Palavra de Deus. Não há salvação, redenção, transformação, mudança de caráter sem as Sagradas Escrituras.

Espero, amado leitor, que tenha conseguido lançar alguma luz sobre estes versículos estudados. É natural que este texto não pode ser chamado de um estudo aprofundado, mas oro ao Pai para que cada ponto aqui comentado esteja gravado em nossos corações deste dia em diante.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki