Em Obras

“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo;” – Filipenses 1.6

No carnaval desse ano tivemos o nosso tão esperado retiro. Não que exista algo de especial, mais espiritual ou mágico em retirar-se do meio da sociedade, mas é um alívio enorme sair da muvuca do carnaval, ir para algum lugar remoto e, em união com demais irmãos, buscarmos ao Criador.

O tema do retiro de minha igreja foi “casa de Deus”, e todas as pregações, meditações e atividades foram voltadas para essa realidade – de que o Deus vivo mora em nós. Foi pregado acerca de qual deve ser nosso fundamento, nosso alicerce, e de como conhecer ao Criador.

Como de praxe, uma semana depois fizemos o nosso “encontro pós-retiro”. A ideia desse encontro é de cultuarmos a Deus, revermos os irmãos e, em comunhão, partilharmos mais experiências sobre os reflexos práticos que a mensagem pregada tem gerado em nossas vidas.

Nesse culto eu pude trazer a mensagem final, a qual desejo compartilhar nesse texto. Tem por base o versículo citado acima, onde Paulo fala aos irmãos da igreja de Filipos sobre a salvação.

Em seu contexto, o versículo deixa claro que o Criador, aquele que começou e nós uma obra – e boa, por sinal – ainda há de terminá-la, completá-la. Paulo aqui está falando de como se dá a salvação na vida de alguém.

O entendimento acerca da salvação pode ser dividido, de maneira mais didática, em três partes que compõem um todo: justificação, santificação e glorificação. Na justificação somos declarados justos perante o Pai, mediante o sangue de Cristo, e nossos pecados são perdoados – passados, presentes e futuros. Já na santificação, processo esse que vivemos hoje em dia, somos constantemente lapidados e transformados pelo Eterno, através da operação de Seu Santo Espírito, para que sejamos mais parecidos com Ele, e que vivamos afastados do pecado. Por fim, a glorificação, quando o Pai nos levar para o Lar.

Na justificação somos libertos da culpa pelo pecado. Na santificação, da influência dele em nossas vidas. E finalmente, na glorificação, de sua presença.

É com esse entendimento em mente que desejo partilhar três itens, no mínimo, sobre o fato de que ainda estamos em obras.

Em primeiro lugar, como estamos em obras, existem cômodos que precisam sair da planta e serem construídos. Quando olhamos para nosso interior, certamente veremos qualidades e defeitos. Entretanto, sentiremos falta de alguns itens também – e é sobre esses que agora desejo comentar.

Ao observar a carta do apóstolo Paulo à igreja da Galácia, logo no capítulo 5, veremos o conhecido texto que trata acerca do fruto do Espírito. O apóstolo dos gentios escreve dizendo:

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.” Gl 5.22

Cada “item” citado por Paulo nesse versículo é um “gomo” do fruto do Espírito, e no contexto desse texto simboliza um cômodo do lar que somos nós. Há a necessidade de vivermos sempre fazendo uma “auto análise” de como estamos, de como andamos, e de como nos portamos perante as demais pessoas – membros da igreja ou não (1Co 11.28).

Assim, precisamos compreender que construir esses novos cômodos – desenvolver o fruto do Espírito – é uma necessidade urgente para todo aquele que se diz cristão. Primeiro, pois essa é uma confirmação de sua eleição e efetiva conversão (Lc 6.44). Segundo, pois é com esses cômodos que conseguiremos mostrar como o Criador, mediante o agir de Seu Santo Espírito, através das Escrituras, transforma pecadores miseráveis em filhos amados.

Assim, sempre que você, querido leitor, fizer uma análise sobre como está seu interior, e sentir falta de algum desses cômodos, ore ao Pai. Peça para que o Santo Espírito lhe transforme e lhe faça cada vez mais parecido com o Eterno.

Em segundo lugar, tal como em uma obra, em nós há muita sujeira, poeira e tralhas – coisas que devem ser descartadas. Cremos que fomos justificados de nossos pecados no sacrifício de Cristo, porém sabemos que, enquanto aqui caminharmos, pecaremos. Assim, é necessário que constantemente tenhamos essa consciência do pecado, para que dele nos arrependamos e venhamos a abandoná-lo.

Essa realidade, de abandonar o pecado, nada mais é que o cumprimento da ordem do Criador  – ”sede santos, porque Eu Sou Santo” (1Pe 1.16). Da mesma maneira em que não encontraremos determinados cômodos em nosso lar, precisamos entender que a sujeira lá existente deve ser expulsa de quem somos, e que para isso é necessária uma vida de santificação, conforme demonstram as Escrituras (Jo 17.17; Hb 12.1, 14 ).

Santo Agostinho descreve isso de maneira fantástica, logo no começo de Confissões. Diz ele:

“Estreita é a mansão de minha alma; peço que tu a aumentes para poderes entrar nela. Ela está em ruínas; peço que tu a reformes. Eu sei e confesso que ela contém coisas que ofendem teus olhos. Mas quem irá purificá-la? Ou a quem devo recorrer, senão a ti?”

Por fim, em terceiro lugar, saiba que assim como uma casa, você também deve ter um propósito. Para ilustrar melhor o que quero dizer, precisarei usar o exemplo de meu pai.

Há alguns anos meu pai comprou, no interior do Estado, um terreno onde havia um galpão abandonado. Querendo morar lá, principalmente para fugir da loucura que é a “cidade grande”, ele, em um período de um ano, demoliu o galpão que existia e, por conta própria, edificou sua casa. Para isso, além de utilizar de certos materiais novos, cuidando de toda encanação e parte elétrica, ele aproveitou de algumas madeiras e demais objetos do determinado galpão e lhes deu um uso, um propósito – serviram como paredes, por exemplo.

Nós, como morada do Eterno, não somos diferentes. Precisamos ter um propósito, um sentido, um “para que”. De início, é fácil e certo afirmar que seu propósito, querido leitor, é de viver para glória de Deus (1Co 10.31). Entretanto, solicito licença para pedir o seguinte: sirva para servir. Lembre-se daqueles cômodos que ainda não existem dentro de você, ore ao Criador para que os tais “saiam da planta” e, após serem construídos, sirva aos outros com o que você tem.

Uma casa vazia, que não protege pessoas de tempestades, dos vendavais, dos espantos noturnos não é valorizada, e por muitos é chamada de inútil. Assim somos nós, quando não cumprimos com nosso propósito, estabelecido pelo Criador, e nos acomodamos na inércia da vida.

Minha oração é de que o Pai nos dê a consciência de que estamos constantemente em obras, e que um dia seremos perfeição.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

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Bendize, ó Minha Alma

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia, que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.” Salmos 103:1-5

Detendo 150 capítulos, o livro de Salmos é, de longe, o mais longo na Bíblia. É composto de canções, poesias e declarações sobre os mais variados temas – desde lamentos e choro pelo pecado ao maravilhar-se ante a Soberania do Senhor.

Em todos esses salmos encontramos os mais variados autores. Moisés, Davi, os filhos de Corá e vários outros homens integram essa lista. O Salmo 103, por exemplo, que será objeto deste texto, tem a autoria atribuída ao rei de Israel, aquele que era “segundo o coração de Deus”, Davi.

De acordo com a Bíblia de Estudo da Reforma, o salmo em questão tem sua estrutura dividida em 4 partes, a saber:

Vs. 1-5, o indivíduo louva ao Senhor; vs. 6-14, toda a comunidade é convocada a louvar; vs. 15-19, a vida humana contrastada com a natureza eterna de Deus; vs. 20-22, convoca toda a criação a honrar ao Senhor.

É precisamente sobre esta primeira parte, onde o indivíduo louva ao Senhor, que desejo esboçar algumas palavras. Pretendo trabalhar sobre quatro pontos de extrema importância que encontramos nestes cinco versículos: “o que é bendizer ao Senhor?”, “devemos bendizê-Lo pelo perdão a nós dado”, “devemos bendizê-Lo pela cura de nossas enfermidades”, e “devemos bendizê-Lo pela prosperidade alcançada”.

De início, então, o que é “bendizer ao Senhor”?

Davi, logo no começo do salmo, convoca todo seu ser para bendizer ao Senhor. Porém, afinal de contas, o que é isso? Seria o louvar Seu Santo Nome? Falar coisas boas acerca de quem Deus é, e de Suas características?

Segundo o dicionário online de português que consultei, Dicio, a definição de “bendizer” responde esses questionamentos apresentados acima, já que se trata de uma atitude de “enaltecer, falar coisas boas sobre” e “estar grato por uma graça alcançada” ou pelos “milagres oferecidos”. Ora, não é precisamente isso que precisamos fazer diariamente para com nosso Deus?

O apóstolo Paulo, ao escrever sua primeira carta à igreja de Tessalônica, deixa claro em seu quinto capítulo e versículo de número 18, “em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”.

Ser agradecido a Deus por todas as coisas, “por todos os seus benefícios”, é, independente da situação em que nossa vida se encontra, independente dos males que nos rodeiem, conseguir olhar aos céus e  dizer, assim como Jó fez, que sabemos que o nosso Redentor vive (Jó 19.25).

Devemos ser gratos a Deus pelos dias calmos em nossas vidas, pelas pescas tranquilas e mares pacíficos que nos cercam, mas precisamos entender que há necessidade de gratidão também pelas tempestades do cotidiano, pela rede vazia e mar em tormenta que ameaça afundar nossa pequena embarcação, já que estes nos aproximam com mais facilidade do Porto Seguro de nossas almas, e nos ensinam muito sobre o Criador dos mares.

Como vimos, “bendizer” a Deus não é apenas ser grato a Ele, mas também “elogiá-Lo”, “enaltecê-Lo”. Umas das maneiras mais comuns que o ser humano encontra para demonstrar amor, afeto, carinho e quaisquer outros sentimentos – infelizmente até mesmo os ruins – é através das palavras ditas. Em nosso relacionamento com Deus isso não deve e não pode ser diferente.

Por diversas vezes na bíblia o povo de Deus, a Igreja, os Seus filhos, toda a criação são convocados para louvar ao Senhor, para reconhecer Sua Grandeza, Majestade Domínio, Poder, Misericórdia, Amor, Soberania. Vemos, em outras passagens, anjos que constantemente voam ao redor do trono do Rei dos reis e clamam, em alto e bom som, louvores ao Eterno (Is 6.3). O salmo 19, por exemplo, nos mostra como a criação reconhece a glória de seu Criador.

Acredito que é necessário citar, novamente, o apóstolo Paulo, em um dos momentos mais poéticos de sua carta aos irmãos de Roma, quando escreve:

“Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? ” “Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?” Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém.” Rm 11.33-36

Que nosso “bendizer” ao Senhor seja recheado de palavras doces de amor e reconhecimento de sua glória, bem como de agradecimento.

Devemos bendizê-Lo pelo perdão a nós dado.

Não é possível falar de qualquer coisa da vida cristã sem antes entender que o que nos faz estar aqui hoje, vivos, é a misericórdia de Deus. Em um dos pontos do Calvinismo, logo no começo do estudo sobre as Doutrinas da Graça, aprendemos uma importantíssima lição acerca da “depravação total”.

Essa doutrina bíblica nos ensina que o homem foi contaminado pelo pecado de tal forma que todas as áreas de sua vida deixaram de ser como no início, no Éden. A forma de agir, pensar, ver, falar, tudo foi contaminado pelo erro. Assim, o homem está completamente separado de Deus. Nada do que ele faça é capaz de aproximá-lo novamente de seu amado Criador. Inclusive, sua natureza foi tão adulterada pelo pecado que o “homem natural”, aquele que ainda não foi regenerado pelo Espírito Santo”, milita contra o Senhor.

Com isso em mente, acredito que torna-se claro o motivo de sermos gratos ao Pai pelo perdão: estamos vivos, fomos eleitos para viver a eternidade ao lado de nosso Criador, somos amados pelo Pai e temos a honra de servi-Lo. Não há algo mais excelente que possa ser vivenciado pelo homem enquanto aqui viver.

O perdão de Deus é o marco inicial para qualquer outra bênção que pode ser alcançada pelo cristão. Não nego a existência da Graça comum, ou do simples fato de que a chuva cai tanto para o justo quanto para o injusto, mas afirmo sem medo que não há benefício maior, mais belo e digno de louvor que a salvação a nós dada pelo Eterno.

A salvação vem do Senhor (Jn 2.9) e ocorre mediante a fé em Cristo Jesus, que é um presente dado pelo Criador a homens e mulheres caídos, miseráveis, desgraçados, conforme relata o apóstolo Paulo aos efésios, de modo específico no capítulo 2 desta epístola. Que sejamos gratos ao Pai por isso, lembrando de bendizê-lo por tanto.

Devemos bendizê-Lo pela cura de nossas enfermidades

Outro ponto que merece atenção é o zelo do Senhor para com nossas vidas. Não falo neste momento das bênçãos materiais alcançadas nem do alimento que Ele permite chegar a nossas mesas, mas sim de Seu cuidado e Sua atenção para com nossa saúde, corpo e bem estar físico, emocional e psicológico.

Quando olhamos para a criação, devemos entender que o Senhor fez tudo de forma boa e agradável a Ele. Em Gênesis, logo após pecar, Adão e Eva são presenteados pelo Pai com vestes que lhes permitissem cobrir suas vergonhas (Gn 3.21). Evidente que há um significado por trás desse ato do Soberano, demonstrando que apenas Deus é capaz de cobrir de fato as vergonhas e misérias humanas, mas a atitude por si mesma demonstra o cuidado do Criador para com sua criação.

Por conta do pecado é que conhecemos a impureza, dor, sofrimento, velhice e morte. Paulo deixa claro aos de Roma que a morte entra no cenário da criação por conta das portas escancaradas ao pecado (Rm 5.12). Porém, da mesma forma que o Salvador cuida de nos dar a vida eterna, Ele também zela para que possamos viver “no plano horizontal”. Vemos a provisão e cuidado do Senhor, por exemplo, com Agar (Gn 21.8-20) e Elias (1Rs 19.1-8) quando ambos, no deserto, foram alimentados pelo Pai.

Bendizemos ao Senhor porque Ele sara nossas enfermidades, nos preserva da morte e nos sustenta quando na aflição.

Devemos bendizê-Lo pela prosperidade alcançada

Esse ponto, as vezes, acaba sendo confundido e mesclado com o anterior – e talvez até mesmo eu tenha feito isso nesse texto. É comum juntarmos o zelo do Criador para com nossas vidas e bem estar físico com o prover cuidadoso do Pai quanto aos bens necessários para que possamos viver.

Quando digo que devemos bendizer ao Senhor pela prosperidade alcançada, desejo de pronto dizer que não há uma gota de concordância nessa frase com a famigerada teologia da prosperidade. Há sim prosperidade bíblica, mas não à maneira neopentecostal.

Essa prosperidade a qual devemos ser gratos é encontrada, pela primeira vez, em Gênesis, quando o Senhor afirma a Adão que seria com o trabalho, suor do rosto, que o sustento alcançaria a casa do homem (Gn 3.17-19). O trabalho, em si mesmo, não é uma punição pelo pecado, até porque essa instituição já existia antes da queda (Gn 2.15), mas sim um meio pelo qual o homem pode prover o sustento para sua família, prosperar de forma correta e valorizar aquilo que recebe.

Paulo, ao escrever sua primeira carta a Timóteo, deixa claro que o trabalhador é digno de receber seu salário (1Tm 5.18), e o próprio Cristo contou parábolas e histórias utilizando-se do trabalho – e de trabalhadores – para exemplificar o que desejava deixar claro, como em Lc 20.9-16 e Mt 20.1-16.

Ainda, além de entendermos que a prosperidade bíblica é alcançada através do esforço de nossas mãos ao trabalharmos e exercermos nossas funções para glória do Pai, devemos compreender que ela está em segundo plano. Cristo é claro ao dizer que o Reino de Deus e sua justiça devem ser prioridade em nossas vidas.

“Portanto eu lhes digo: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé? Portanto, não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer? ’ ou ‘que vamos beber? ’ ou ‘que vamos vestir? ’ Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”.” Mt 6.25-34

Nessa passagem o Mestre trata sobre os cuidados da vida, as preocupações e coisas que fogem de nosso controle, porém deixa claro que o que nos for necessário, Deus há de prover.

Afinal, Deus é nosso Pai, e precisamos vê-Lo como tal. Em outro evangelho, o de Lucas, Cristo nos diz precisamente isso.

“E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Lc 11.11-13

Para bendizer ao Senhor pela prosperidade alcançada é necessário ter em mente ao menos essas duas verdades apresentadas: recebemos o necessário da parte do Senhor, e com nosso trabalho receberemos o sustento do dia a dia.

Que saibamos ser gratos ao Pai, honrando Seu santo nome e bendizendo-O todos os dias de nossas vidas.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

Ela Fez O Que Pôde

“Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória.” Marcos 14:8-9

Há algum tempo venho meditando nessas palavras. Ouvi um sermão sobre estes versículos pela primeira vez há pouco tempo, em minha igreja. A expressão “ela fez o que pôde” ficou gravada em minha mente e coração, me consolando e confrontando.

Vivemos em uma sociedade depravada, essencialmente materialista e egoísta. Não raramente, vemos imagens e filmagens de pessoas saqueando a carga de caminhões tombados, e o pico de anarquia que dominou o Estado do Espírito Santo neste ano demonstra que, sob os termos de “liberdade plena” (isso o homem natural, não regenerado), o ser humano consegue se tornar um animal irracional, tal como Hobbes o dissera, contrário ao zoon politikón (“animal político”) de Aristóteles.

Esta depravação, manifestada através do egoísmo já citado, abarca as relações entre as pessoas, e dessas com Deus. Somos educados a fazer apenas aquilo que pode nos privilegiar, aquilo que é capaz de nos dar algum benefício, mesmo que seja em detrimento de outras pessoas. Infelizmente isso faz parte de nossa cultura, resultado de uma sociedade caída e mergulhada no pecado.

Nos dois versículos expostos acima, constantes no evangelho de Marcos, vemos precisamente o oposto ao que dito, ainda que os demais versos deem embasamento para a argumentação apresentada, já que era do intuito de Judas vender aquele óleo e ficar com o dinheiro para si (Jo 12.4-6), mesmo que usando os pobres como desculpa para acobertar este desejo.

Maria, ao contrário, tomou o que tinha, algo que lhe custou caro, e derramou sobre Cristo, como um prelúdio do que estava por vir ao Mestre. Ela fez o que pôde, adorando ao Senhor e se prostrando ante a necessidade de Sua morte. Usou o que tinha em suas mãos, e com isso nos deixou lições a serem aprendidas.

Desejo expor quatro tópicos sobre este assunto, que creio serem necessários.

Não fique aquém

Fazer aquilo que pode significa agir com o que você tem em mãos, entendendo que há uma meta a ser alcançada. Ficar aquém daquilo que pode ser feito, ou seja, abaixo das expectativas, é o mesmo que entender a grande tarefa que tem pela frente, mas ignorar tal significado ao não valorizá-la como deve.

Ou, então, mesmo entendendo o que deve ser feito, é também a falta de preparo para isso. Como exemplo, creio que posso citar seguramente o rei Davi. No livro de 1 Crônicas, no capítulo 13, nos é narrada a história de quando o monarca decide, em conjunto com o povo, trazer a Arca da Aliança para o meio do povo de Deus.

Para fazê-lo, entretanto, manda construir um carro de bois. Carro novo, nunca utilizado, e de certa forma dotado de uma carga emocional e simbólica para o rei. Porém, ainda assim, o projeto não fora aprovado pelo Senhor. Por quê? A resposta é encontrada dois capítulos depois, quando Davi entende que a Arca só poderia ser carregada pelos descendentes da tribo de Levi (1Cr 15.2).

Ainda, outro exemplo a ser citado é o de Nadabe e Abiú, filhos de Arão. Encontramos sua história no livro de Levítico, capítulo 10. A história nos conta que estes dois homens introduziram “fogo estranho”, ou “fogo profano”, no culto ao Senhor. Ficaram aquém daquilo que lhes era cobrado.

O que, afinal, faz com que esses dois exemplos possam ser utilizados aqui? A resposta, confesso, me parece simples: em ambos os casos o que se requeria dos envolvidos era apenas uma coisa: observância da Lei do Senhor. Porém, ao não fazê-lo, acabaram por ficar aquém daquilo que lhes era esperado.

Não vá além

Da mesma maneira que podemos, infelizmente, ficar aquém do esperado e desejado para nós, é verdadeira a afirmação de que também é possível ir além do que nos requisitado.

Querido leitor, espero que você não confunda este tópico com “pró-atividade”, mas que entenda minhas palavras como um alerta para que você não faça aquilo que não foi chamado a fazer.

É ótimo, louvável e saudável quando desejamos fazer mais para nosso Senhor, porém, devemos ter a consciência de que há coisas das quais não conseguiremos participar ou realizar, haja vista o ministério específico que pelo Mestre nos foi proposto.

Ora, é precisamente isso que Paulo demonstra aos de Corinto quando escreve sua primeira carta, no capítulo 12, a partir do versículo 11 e até o final do capítulo. Segundo o apóstolo, e cremos que inspirado pelo Santo Espírito, “o corpo não é composto de um só membro, mas de muitos” (v. 14), e, ainda, que os dons e ministérios são distribuídos pelo Espírito a cada um, conforme a vontade dEle (v. 11).

Quando não compreendemos que o Senhor tem chamados diferentes para pessoas díspares, ministérios específicos para determinados momentos e povos, agimos como o rei Saul, e por insensatez tomamos atitudes contrárias à Palavra do Pai. Tal como Nadabe, Abiú e Davi, o primeiro rei de Israel comete um erro grosseiro: não observa os mandamentos do Senhor.

A bíblia demonstra que, tomado pela impaciência, o rei toma as rédeas do culto ao Senhor e, usurpando uma função que não era sua, oferece sacrifício ao Criador. Saul foi duramente repreendido pelo profeta Samuel e teve a ruína de seu trono decretada (1 Sm 13.9-14).

Faça o que pode

Observe o que você tem nas mãos. Entenda o que o Senhor lhe comandou fazer. Veja aquilo que lhe é entregue pelo Pai, para trabalhar nos campos já brancos e

prontos para a cega.

“Fazer o que pode” implica necessariamente em observar os mandamentos do Pai, visto que eles nos servem como luz para a caminhada (Sl 119.105), e obedecê-los (Sl 119.11). Essa é a regra fundamental para todo aquele que deseja seguir a Cristo e entregar-Lhe culto ou louvor: deve-se viver atento à Palavra de Deus.

Infelizmente muitos de nossos irmãos se perdem precisamente neste ponto, pois tem “as armas nas mãos”, mas carecem de entendimento bíblico para utilizá-las. O Senhor dota seus filhos de sabedoria, inteligência, criatividade e outras tão marcantes características, mas esses acabam não colocando tais atributos aos pés da cruz de Cristo, e não utilizam os dons dados pelo Pai da maneira correta.

A pergunta de Deus a Moisés, no Egito, ecoa aos nossos corações nos dias atuais: “o que tens na mão?”. O líder de Israel tinha na época uma vara, e a utilizou conforme determinou o Senhor. Maria tinha um vaso de alabastro com um perfume caríssimo dentro, de nardo puro (Mc 14.3), e quebrou este precioso óleo aos pés de Cristo. E você, que tem em mãos? Faça o que pode usando sua profissão, usando seus conhecimentos “seculares”, sua mente e corpo.

Faça para glória de Deus

Por fim, creio que o mais importante: independente do que você fizer, faça para glória de Deus. Eis aí uma verdade que não consigo deixar de citar ou expor sempre que vejo ser necessário. Paulo deixa-a muito clara em 1Co 10.31,

“Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” 1 Co 10.31

E, ainda, o Breve Catecismo de Westminster, em sua primeira pergunta, indaga, para logo responder:

“PERGUNTA 1. Qual é o fim principal do homem?

RESPOSTA. O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.

Referências: Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.25-26; Is 43.7; Rm 14.7-8; Ef 1.5-6; Is 60.21; 61.3”

Tudo o que fazemos deve visar a glória de Deus, posto que Ele é o Soberano Criador de todas as coisas, Rei eterno e transcendente. Que façamos sempre nosso melhor, entregando ao Pai um culto, através de nossas vidas e atitudes, digno de adoração e louvor.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

Olhando Para Jesus

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus”. Hebreus 12.2

Quando um jovem faz 18 anos de idade surge nele um novo desejo: obter sua habilitação como motorista. Depois de preenchida a papelada e concluídas as aulas teóricas, vem o tão esperado momento de entrar no carro, girar as chaves e acelerar. Neste momento, entretanto, o professor lhe dá algumas instruções: “ponha o cinto de segurança”, “olhe os retrovisores”, “preste atenção à frente”, “olhe para um referencial”.

Não sei se você já navegou, leitor, mas sei ser uma experiência e tanto. Entretanto, independente do tamanho da embarcação, desde “bateiras” a cruzeiros, algumas pessoas sofrem de enjoos terríveis, que lhes incomodam a viagem inteira. Nestes momentos é comum alguém dizer “foque os olhos no horizonte”, “olhe lá para frente”.

Sei que parece um conjunto de exemplos sem sentido ou nexo, mas em ambos meu desejo é de tratar sobre um tema específico: a necessidade de termos um alvo, uma direção, um ponto referencial.

Como já citei, esta necessidade é bem clara em nosso dia a dia, em nossas labutas diárias e cotidiano. Porém, tal qual na vida a “nível horizontal”, quando tratamos das “coisas do céu”, o “nível vertical”, essa premissa também é presente. Em primeiro lugar, porque esta dicotomia que citei serve apenas para fins “didáticos”. Nosso cristianismo não deve ser resumido apenas a uma busca etérea pelo céu ou vida futura ao lado do Pai, mas sim algo presente em todas as nossas atitudes e pensamentos. Em segundo lugar, porque nossa caminhada precisa ter um foco.

Para isso, gostaria de citar mais dois exemplos, que creio serem suficientes para demonstrar meu pensamento sobre os perigos de tirarmos os olhos de nosso Foco. Trago, então, Asafe e Pedro.

Quando Asafe olha para o ímpio

Se voltarmos nossa atenção ao saltério, em especial para o Salmo 73, veremos uma declaração perturbadora de Asafe: ele olha para o ímpio, para sua prosperidade, e sente inveja. E quem, sob a ótica do salmista, não teria este sentimento?

Como lemos nos versos iniciais, o ímpio não passa pelo sofrimento, não vê a dor, seu corpo é forte e vigoroso. Despreocupados, olham para suas riquezas que não deixam de crescer e até de Deus zombam, indagando se há como o Senhor lhes observar e ver.

Asafe vê isso, sente o desespero no âmago da sua alma quando indaga ao Pai sobre o próprio sofrimento. “Todas as manhãs sou castigado”, afirma o salmista, “foi-me inútil manter puro o coração e lavar as mãos na inocência”, diz em outro verso. Logo no começo do salmo nós vemos o que esta mudança de foco causou no salmista:

“Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei”. Sl 73.2

Quando Asafe tira os olhos do Senhor e olha para a aparente vida tranquila daqueles que blasfemam contra Deus e vivem de maneira contrária à Lei do Criador, seus pés quase tropeçam. Ele quase abandona a fé. Entretanto, em meio a este desespero todo, o salmista consegue voltar sua atenção ao Todo Poderoso e nEle encontrar socorro. É precisamente o que nos narra no verso 17, “até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios”.

Ao voltar o foco de seus olhos ao Criador, aí então seus pés são firmados na Rocha, sua fé é fortalecida, e sua certeza na providência divina é restabelecida. Sem medo, o salmista afirma que quando sentiu inveja dos ímpios, agiu como um animal: irracional, insensato, ignorante. Ele vê o fim do ímpio: a eternidade em sofrimento. Também, vê a Graça alcançando o justo: a eternidade ao lado do Pai. Do que adianta uma vida terrena cercada por riquezas, bens e prosperidade, mas longe do Criador, se o que de fato importa estará perdido?

A clareza de seus pensamentos é demonstrada em um versículo especial, o de número 25, quando ele afirma que no céu tem apenas a Deus. E, se na verdade O tem nos céus, o que mais poderia desejar na terra? “Deus é tudo o que preciso”, declara.

Quando Pedro cai sobre as águas

Sobre Pedro, desejo tratar de uma passagem muito conhecida. Encontramos estes versículos no evangelho segundo escreveu Mateus, no capítulo 14.

“Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?” Mt 14.27-31

Neste episódio encontramos Cristo andando sobre as águas. Nosso Senhor tinha acabado de alimentar uma multidão, multiplicando peixes e pães, e retirando-se à parte decidiu orar. Para isso, mandou que seus discípulos fossem à frente.

Dado momento, durante a madrugada, com o barco em alto mar, uma tempestade lhes aflige, as ondas balançam a embarcação e o vento lhe açoita a paz. Cercados pelo desespero, veem o que lhes parece ser um fantasma. Cristo, então, ouvindo os gritos de seus discípulos e vendo sua fé ser tomada pelo medo, lhes tranquiliza identificando-Se. É neste momento em que Pedro fixa seu foco no Senhor. No Salvador.

Sob o mandar de Jesus, Pedro salta do barco ao mar e, ao inveś de nadar, ele caminha. Milagre! Apenas o poder sobrenatural do Criador é capaz de permitir algo como isso. No decorrer de sua caminhada aos braços de Jesus, entretanto, Pedro perde o foco. A Palavra nos conta que o apóstolo sente o vento forte e teme. Este temor afasta seus olhos, sua fé, do Foco. Ele começa a afundar. No estopim do desespero, clama por Cristo e pelo Senhor é salvo. Em meio ao pavor de morrer, o discípulo lembra de quem É o seu referencial.

E quanto a nós?

Usei quatro exemplos neste texto para tentar demonstrar que sentimos a necessidade de ter um foco para nossas vidas. E, tal como nos dois último que utilizei, o nosso foco é o mesmo: o Senhor. No versículo de abertura deste texto o autor de Hebreus deixa claro quem deve ser o foco de nossas vidas, “olhando para Jesus, autor e consumador da fé”.

Talvez, como Asafe, olhemos em dado momento para a prosperidade do ímpio, e que um sentimento de inveja e abandono por parte do Pai nos tome o peito. É possível que vejamos nossos conhecidos, aqueles não professam a fé no Salvador, obtendo lucro, crescendo profissionalmente e tendo uma vida tranquila, aparentemente em paz. Entretanto, que consigamos fazer o mesmo que o salmista: reconhecer nossa insensatez neste sentimento de inveja que brota no coração e ver que o Senhor é nossa necessidade. Se temos a Deus, o que poderia nos faltar?

Ainda, quem sabe as circunstâncias da vida nos atribulem ao ponto de nos fazer tropeçar na caminhada, e tal como no caso de Pedro o vento, as ondas, os problemas façam com que nosso referencial deixe de ser Cristo. Que, neste momento, consigamos nos lembrar do que escreve o autor da carta aos Hebreus: olhando para Jesus.

Independente do que passamos em nossas vidas, que Cristo seja o nosso alvo, nosso foco, nosso referencial. Que Ele seja nosso padrão, nosso galardão.

Minha oração, querido leitor, é que você lembre disso em sua caminhada. Que venham os sentimentos contrários, que venham as ondas, o vendaval e as tempestades da vida, mas que seus olhos estejam sempre cravados em Jesus, que lhe deu a fé e é quem completa, termina.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

Seguindo a Multidão

“Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado.” At 19.32

Ano passado tive a oportunidade de escrever um texto sobre quem é o alvo de nossa adoração e culto. Neste artigo, que pode ser acessado aqui, dissertei um pouco sobre a pobreza que encontramos em muitas pregações, canções e métodos evangelísticos de nossos dias, que são distantes e destoantes dos princípios bíblicos para tais.

Nesta mesma linha de raciocínio, desejo tecer algumas palavras sobre o versículo exposto acima. Temos uma noção de que nossos púlpitos estão com sérios problemas doutrinários, onde até mesmo o pelagianismo (ou semipelagianismo) tem sido pregado, e nossa nação está cada vez mais afundada em um lamaçal de corrupção e pecado sem igual, mas resta ainda uma questão que necessita de nossa atenção: e nós, seguimos a quem?

No contexto do capítulo 19 de Atos, vemos que a partir do versículo 23 Lucas descreve um grande alvoroço que houve em Éfeso acerca do Caminho, como era conhecido o Cristianismo. Um ourives, chamado Demétrio, que fazia moedas de prata do templo da deusa Diana (“versão” romana para Ártemis, dos gregos), reuniu outros homens, de ofícios semelhantes e, atiçando-lhes o coração escravizado pelo pecado, instigou-os contra a pregação de Paulo, levando-os a gritar, em plenos pulmões, “Grande é a Diana dos efésios!”.

Estes homens, apelando para o senso de religiosidade de seus ouvintes, lutavam por seu lucro e bens financeiros. Creio que aqui vale a pena abrir um pequeno parêntese no texto, para abordar este detalhe.

É necessário frisar que não é considerado pecado um empreendedor – cristão ou não – querer lucrar. É evidente que isso faz parte do mercado financeiro. Entretanto, este desejo torna-se pecaminoso se há, no coração deste empresário, o amor pelo dinheiro ou a intenção de aproveitar-se da fragilidade e vulnerabilidade dos consumidores e funcionários para elevar a margem de lucro, por exemplo.

Também, e agora dentro do contexto dos versículos 25 a 27, é extremamente pecaminosa a atitude de muitos pastores e líderes religiosos, ou até mesmo pessoas consideradas como “apenas membros” de suas igrejas locais, mas que exercem algum poder de influência, quando aproveitam-se dessa capacidade e “palavra de ordem” para, através da ignorância, inocência ou fé cega de seus fiéis, induzir o povo ao cometimento de atitudes equivocadas, porém geradoras de renda ou qualquer outro tipo de “benefício” pessoal.

Fechando este parêntese aberto, desejo voltar sua atenção a uma frase que me marcou de forma profunda quando li o versículo 32 deste capítulo 19 do livro de Atos dos Apóstolos. Transcrevo, abaixo, o referido texto:

“Lá dentro, em polvorosa, o povo todo gritava, e cada um dizia uma coisa. Na verdade, a maioria nem sabia por que estava ali.”¹

Que dura realidade! Novamente cito minha pergunta presente nos parágrafos iniciais: e nós, a quem temos seguido? E por favor, não limite este questionamento apenas ao âmbito eclesiástico. Não almejo saber se você é reformado ou pentecostal, se crê que os dons cessaram ou que continuam. Que este debate fique para outro momento, em outros textos. Aqui, quero que você aplique esta indagação ao seu cotidiano, seu emprego, estudo, dia a dia. Se alguém analisar sua cosmovisão, verá quem no centro dela?

Com um Brasil extremamente polarizado, onde o debate político, por exemplo, foi resumido à mísera dicotomia “pró-PT” e “contra PT”, uma multidão de cristãos navega em águas e mares do saber que lhes são desconhecidas, seguindo vozes que tentam gritar acima das ondas. Entretanto, sabem ao menos a quem estão seguindo? Conseguiriam apontar as diferenças entre estes dois extremos do jogo político, antes de tomar partido e defender, com unhas e dentes, ideais que na realidade não possuem?

A fé cristã é racional, e Paulo nos deixa isso muito bem claro nos versículos iniciais do capítulo 12 da carta que escreveu aos irmãos de Roma. Sendo uma fé racional, pressupõe-se que o “crer” esteja acompanhado do “pensar”. Como escreveu John Stott, “Crer é também pensar”. Ainda, a fé cristã é abrangente, alcançando todas as áreas da vida do ser humano. Seja no comportamento social, visão política, modo de vestir-se, palavras a serem utilizadas, para todas as áreas da vida a Palavra determina como um cristão autêntico deve procurar viver.

Ventrella certa feita escreveu:

“Proclamar como a religião afeta a vida pública é parte do processo da instrução do cidadão para viver com fidelidade – a estar no mundo, mas não ser do mundo. Todavia, para fazê-lo, as pessoas devem aprender como sua fé se aplica fora das portas da igreja, incluindo sua aplicação às questões de cultura e, sim, à política pública.”

Estamos no mundo, mas a ele não pertencemos. Estamos rodeados de trevas, mas com a missão de resplandecer a luz de Cristo em nossas vidas. Somos chamados para sermos servos fiéis do Cordeiro. Fomos criados para glória do Pai. Somos chamados para sermos criaturas pensantes, que usam este intelecto dado pelo Criador de maneira a glorificá-lo. Sim, você precisa saber em quem crê, a quem segue, que fé professa.

Não seja mais um que segue a multidão, mas que não faz a menor ideia do porquê está ali. Questione, indague, pergunte, coloque à prova, mas não siga às cegas. Bem sei que utilizei como exemplos a política e o púlpito para demonstrar meus pontos, mas espero ter deixado claro que este assunto não se limita a tais esferas, expandindo-se para o que já dito anteriormente: todas as áreas da vida humana.

No final do capítulo 19 de Atos, vemos que o escrivão da cidade, ao invocar a lei, dispersou a multidão, colocando-lhes senso na mente. Assim, que a Palavra do Senhor, que é a nossa Lei, seja aquela que lhe apaziguará os pensamentos, fazendo com que seus pés caminhem pelos trilhos das Escrituras. Que você saiba a quem está seguindo, em quem está crendo.

Este é meu clamor, amado leitor.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

¹ Texto retirado da Bíblia Sagrada NVT: Nova Versão Transformadora
² Jeffery J. Ventrella, em “Política e púlpito: o que Deus requer?”